“ Rejeição”



Não!
Ele me disse não!
Precisava encerrar sofregamente aquele “não”
Na alma, na mente, no peito,
Para retornar à terra, ao telúrico chão.
E ele, sem vacilar, deixou que eu assimilasse
Aquela mensagem, deu sentido à sua imagem,
Absurda cena plástica, como uma fotografia muda,
Revelou-se cálida, passiva, gelada,
Onde os sentimentos mais íntimos não têm vida,
Não tem carne, não tem nada...
Se havia dúvida, sua sombra se dissipou.
A verdade, inexorável, se revelou:
Pela expressão da face que denotou indiferença;
Pelo silêncio das palavras, do delito comedido;
Um “não” enfatizado pelo olhar distante, introvertido;
Pelo corpo recuado, alojado na reentrância
Da cadeira de largo espaldar, a anelar
Com passividade insofismável,
Aquele momento banal, a mera circunstância.
E as mãos? Silentes, reclusas, acomodadas aos seus próprios motivos,
Como a repelir súplicas incontidas: um aviso.
Aquele “não”, não foi só com os lábios,
Mas com os olhos concentrados,
Fixos, não na minha direção ou no meu desagrado,
Mas, na indeclinável determinação do coração.
Nos meus olhos as lágrimas ainda resistiam indecisas,
Aguardavam silenciosas, imprecisas,
Que tudo não passasse de um jogo lúdico, pura fita ou diversão.
Engano vão!
Um silêncio mordaz foi o que se fez assediar,
Como um perfume, propagando-se no ar.
A silenciosa fragrância, na extensão do meu ser a prantear,
Concedeu-me tempo para a realidade aceitar.
Recuei, na ânsia de me afastar,
Daquele momento, daquela hora, daquele lugar...
A um só tempo vislumbrei
Todo o passado que ao seu lado fiquei.
Pois não foi um inimigo quem me traiu covardemente,
Senão eu o poderia suportar,
Nem alguém que me odiava intensamente,
Senão eu o poderia afastar.
Mas, foi um que comigo residiu.
Que me era íntimo e meu amor possuiu.
E agora, da doce intimidade desfrutada,
Pouco restou, ou mesmo nada.
Na minha mente, com os pensamentos a fervilhar,
Procurei os porquês, as razões e por não as encontrar,
No quarto escuro me deitei e procurei,
Sozinha, arrazoar, reconstituir com comedida eutimia,
Os fragmentos de lembranças, retalhos de uma paixão, cuja valia
Fez-se hoje resumida numa mera expressão de alegoria.
O que deu errado?
Onde deu errado?
Vamos, então, consertar?
São perguntas de retórica, cujas respostas a descerrar,
Estão perdidas na corrente de um tempo inalcançável,
Num passado imutável,
Aprisionadas numa realidade morta.
Compreendê-lo, agora, nada conforta.
Como tudo se desfez!
Em rápida sucessão, tudo se foi em vão.
É patético pensar que ele nem se abalou,
Ao ver-me desalentada,
Indignada pela sua impassível decisão.
No jardim me sentei,
E também chorei,
Quando me veio à mente, de repente,
A frase inocente que lhe indaguei:
Você me ama?
- Ah! como eu fui tola! Nenhuma lágrima ele derrama!
Mas, não me dou mais a gastar
Tempo que seja para amar
A quem meu amor só fez desprezar.
Atualmente, consigo enxergá-lo melhor,
Em nítidos contornos.
Vejo-o vão, sem nenhum adorno.
Se para mim era Apolo em sua lindeza,
Agora seu perfil é de fútil beleza.
E nem me vêm mais à mente seus passos rastrear,
Para saber com quem anda
Ou deseja ficar.
Pois, se a sua face de outra se enamorou,
Não sou mais eu quem irá obstar,
O que já se encantou.
Bem sei, eu reconheço,
Sitiei os seus passos,
Os seus bolsos revirei ao avesso.
Menti por puro ciúme.
Quando eu o seguia, não me era costume.
Basta, vou me afastar bem longe dos seus termos,
A passos largos, determinados, sem vacilar.
E se eu pressentir, no meu desterro,
Que algo do seu ser, no meu ser ainda ficou,
Vou esmiuçar, triturar, esmagar,
Até não mais restar,
Nada que me faça lembrar,
Do dia em que meu coração de você se enamorou.
Que te vá bem em sua escolha na vida.
Mas, o amargo sabor da despedida
Por bom tempo a te instigar,
Certamente te fará recordar,
Com saudade, de um passado não distante,
Onde ao meu lado se fez amante.
E que te sirva de estorvo no seu mundo,
O meu amor, o mais profundo,
Quando no silêncio íntimo do quarto,
Na consumação do ato,
A te faltar o ar,
Eu te fiz, como nunca, amar.

Texto: MeroísaCosta
 

 

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