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Como Pérolas e Ralos
(Maria Inês Simões)
O dia cinzento anunciava o
lenga-lenga do tempo. As nuvens escuras venciam a
timidez do sol, o qual de vez em quando raiava em um
brilho amarelado e sem graça. Prevaleciam as cores cinza
e amarelo, dando ao céu um tom perolado. Como nunca
havia visto igual. Em espaços de horas,
a água rápida e impetuosa descia de súbito, acompanhada
de relâmpagos e trovoadas, avisando que assim
permaneceria por uma série ininterrupta de instantes
eternos.
Enquanto a água descia, olhava
pela janela, tentando imaginar como seria se o sol
estivesse vencendo naquela luta diária pelo tempo.
Crianças estariam na calçada brincando... Pessoas sadias
estariam ocupando seus lugares no trabalho. Ao invés de
lotarem hospitais levados por "influenzias mils". Culpa
de suínos? Quem sabe, não daqueles próprios da família
dos suídeos, mas sim daqueles que na escala evolutiva
permanecem ronronando em seus chiqueiros e lamaçais de
ganâncias ambientais.
O aguaceiro continuava descendo do
céu... No canto do muro, como que, encurralado por algum
construtor de moradas. Jazia inerte um ralo branco e
encardido. Ao seu redor formava uma pequena
circunferência daquele líquido insípido e transparente.
Pensava... Do céu caem pequeninas gotas cristalinas como
pérolas raras... Algumas têm sorte de caírem em
plantações, jardins e rostos. Outras simplesmente caem
por terra... Enquanto a maioria escorre pelos ralos e
acaba em esgotos misturando-se a detritos... E pensar
que eram como pérolas...
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Pequenos Contos Poéticos
de Maria Inês Simões
Fomatação:
www.mis.art.br

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