PROSTITUIÇÃO EMBRIAGADA

Sandra Lúcia Ceccon Perazzo



Saí vestida de esperança,
Encontrei homens bêbados,
Deparei com mulheres profanas,
Esbarrei em crianças famintas,
Na retina do meus olhos,
A mancha da aridez humana...
E toda aquela esperança,
Desmanchou em agonia,
As palavras com as quais me vesti no entusiasmo,
Perderam-se na boca da minha alma,
Os sons sufocados implodiram
Neste esvair sem sentido...
Só me restou poetar,
Falar de sonhos destemidos,
Evocar os homens de boa vontade,
Para que as nossas crianças
Sejam alimentadas em carrosséis
Cobertos de lonas brilhantes,
Invocar a lógica indomável
Do viver em solidariedade,
Do cirandar com a fraternidade,
Restou também nesse sonhar adolescente,
A boa vontade,
A fé de aço,
O impulso ardente,
A coragem da rebeldia valente...
Por isto,
Mesmo na perdição do nosso mundo,
No inconformismo da indignidade,
No desequilíbrio da lucidez,
Ainda consigo ver brilho na rosa desbotada,
Consigo ver trigo transformado em pão,
Consigo acreditar na humanidade,
Consigo ver você que me lê como irmão,
Consigo enxergar a luz dos meus olhos,
Na sombra de todos os corações
Que não podem mais sonhar e nem acreditar...
Consigo ainda imaginar,
A prostituição embriagada
Transformada em infância,
Acordando os bares,
Jorrando leite e água,
Na boca da criança abandonada...

Sandra Lúcia Ceccon Perazzo
(Sperazzo)
2/12/2006

 

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